Continuação da história do Marinho Benvenuti
Uma nova experiência musical teve início. O som daquela banda era uma mistura das coisas do nordeste com as coisas do sul. Havia influencias de forró, de tropicalismo, de rock, de samba, de tudo um pouco. Costumávamos nos apresentar no programa da rede Tupi “Almoço com as Estrelas” e no programa do “Bolinha”. Finalmente fomos parar na “Busina do Chacrinha” e alcançamos sucesso com a estapafúrdia música “Feira da Fruta”.
Uma banda com essas características, chamou a atenção do Tom Zé. Logo, estávamos fazendo uma parceria. Nos apresentávamos juntos, em várias casas de espetáculo em São Paulo e aos 19 anos de idade, já me encontrava no estúdio de gravação da Continental para colocar meu baixo no samba “Menina, Amanhã de Manhã” do Tom, de seu LP intitulado “Tom Zé”. Nas outras faixas o Gabriel fez o baixo. Aliás, aprendi muito escutando o baixo do Gabriel. Neste mesmo disco também fiz a voz em “Senhor Cidadão”, uma música bela e instigante. A seguir, gravamos também outro disco do Tom, “Todos os Olhos”.
Nesses tempos, tive a oportunidade de conhecer algumas grandes personalidades. Escutei o poeta Augusto de Campos declamar suas poesias e conheci uma figura decisiva em termos de orientação que foi o Rogério Duprat. Ele dava orientação ao Tom durante as gravações, era um cara muito legal e havia estudado música no exterior. Num determinado momento, me aproximei dele e perguntei como era a educação musical “lá fora”. Disse que na Europa, estavam as grandes escolas de música erudita e nos Estados Unidos as de pop-rock e jazz e citou algumas, dentre elas a Berklee College of Music em Boston. Fiquei com aquilo na cabeça e fui comprar um disco de jazz sem entender muito do assunto. Dei sorte, comprei um ótimo disco de big band do Charles Mingus que acabei gostando muito.
O jazz pra mim era uma coisa diferente. Ao mesmo tempo, que gostava de algumas coisas, não gostava de outras. Hoje entendo isso, é que sei que o jazz é dividido em muitas fases, afinal, são 100 anos de jazz. Algumas fases são light como o “cool jazz” e outras são heavy como o hard jazz ou o free jazz. Só sei que acabei me empolgando com o jazz e fui parar novamente na Casa Manon. Comprei um trompete. Que decepção!
O som do instrumento era lindo, mas, como era difícil! Tinha que fazer uma força enorme pra soprar e tirar algum som. Era totalmente diferente da gaita, um instrumento delicado se comparado ao trompete. Mesmo assim, insisti no trompete quase um mês, mas, finalmente desisti. Tenho esse trompete guardado comigo até hoje.
Comentando com meu irmão sobre ir estudar música nos Estados Unidos, ele disse que conhecia um carioca amigo seu, o Alfredo, que estava cursando música na Berklee. Lembrei também do Rogério Drupat que havia me dado uma dica sobre estudar “arranjo”. Disse que se eu fosse fazer arranjo, era bom aprender piano, porque as “coisas” do arranjo estão todas ali, no teclado. Comecei então a prestar atenção nos pianistas e entender que antes de ir para a Berklee, precisava aprender piano. Rogério era um grande arranjador e eu também queria pelo menos tentar ser um. Entrei em contato com uma professora de piano clássico e comecei os estudos.
Escrevi para a Berklee e recebi uma resposta que era necessário atender os pré-requisitos para ser aprovado para o curso de piano, arranjo e composição. Era muita coisa. Só entra pra Berklee quem já sabe tocar bem o seu instrumento. Passei um ano com aquela professora e finalmente, fui para os Estados Unidos. Conheci o Alfredo que me mostrou a Berklee, e vi que a coisa era mais difícil do que imaginava. Antes de entrar pra escola, lá mesmo, nos Estados Unidos, ainda estudei mais um ano com o professor e compositor de piano contemporâneo Barry Taxman. Neste ano também casei com uma americana e me tornei cidadão americano.
Estando em Boston, fiz um curso de verão na própria Berklee, hoje conhecido como “Summer Program”, que além de outras coisas, capacita o aluno a ingressar na escola.
Na realidade, meu piano era um quebra galho na frente dos outros alunos. Aquela moçada já tocava piano desde garoto. Mas, comecei a amar profundamente aquele instrumento e tudo que pudesse fazer para aumentar meu conhecimento, corria atrás.
Meus amigos brasileiros mais chegados da Berklee, eram o pianista Rick Pantoja, ex Cama de Gato, o guitarrista Ricardo Silveira, o paulista Lino Simão grande compositor multi instrumentista, o Felipe carioca e o Frê de SP. Havia outros, o guitarrista Líber Gadelha, o baterista Pascoal Meireles e o saxofonista Zé Assunção.
Escutava de tudo, principalmente as big bands e as orquestras de música erudita. Esmiuçava as partituras para ver como eram feitos os arranjos. Depois de um tempo, já estava conseguindo acompanhar por ex, a partitura de uma composição monumental chamada, Sagração da Primavera de Stravinsky. Não necessariamente que eu lesse nota por nota, mas, sabia seguir a partitura com exatidão. Assim também com as sinfonias de Beethoven, Wagner e outros compositores.
Fiquei dois anos na Berklee, o suficiente para abrir a cabeça, musicalmente falando.
Depois, fui para São Francisco e montei um quarteto com piano, guitarra e com um colega brasileiro na bateria, e fui ser feliz. Desta vez eu era o baixista.
Um dia, numa loja de discos na Califórnia, deparei-me com um disco do Bill Evans, que era meu ídolo na época, junto com o Jaco Pastorius. O disco chamava-se “Afinnity”. Bill tocava com um cara chamado Toots Thielemans na gaita. Aquele disco foi uma porrada que levei, pra acordar, porque existiam coisas lindas que jamais podia suspeitar. Um piano daquele, com uma gaita divina daquela. Quem era aquele gaitista sobrenatural? Era o Toots que eu não conhecia. Imediatamente ele também virou meu ídolo. Eu tinha uma cromática da Hohner, uma CBH 2016 e ficava tentando imitar o Toots, mas, não conseguia chegar nem perto do que ele fazia. Achando que minha gaita não era boa, fui a uma loja de instrumentos musicais e comprei outra cromática da Hohner, uma Cromonica 64 vozes. Mesmo assim, deu pra evoluir muito pouco. Peguei as partituras do Charlie Parker, tentei fazer alguma coisa na gaita, mas, não fui muito feliz e acabei resignando-me a minha mediocridade. Em 1989 fui ver o Toots tocar em S.Paulo. Sentei na primeira fila e ouvi maravilhado ele tocar genialmente, dentre muitas músicas, a linda Snow Peas, do disco Afinnity, uma de minhas prediletas.
Imaginava que os gaitistas consagrados como Toots e Stevie Wonder, deveriam receber gaitas customizadas especialmente para eles. E é verdade, tanto é que, nas lojas americanas daquela época, mesmo as Hohner, precisavam de customização. Mas não sabia nem mesmo afinar as palhetas da gaita, quanto mais, fazer uma customização. De qualquer maneira, continuei a tocar minhas gaitas, tanto as diatônicas, quanto as cromáticas, e esperar que um dia no futuro, alguma fabrica de gaita começasse a customizar suas gaitas, para serem comercializadas em lojas para qualquer cidadão que desejasse comprá-las.
De volta ao Brasil.
Quando cheguei, depois de cinco anos nos Estados Unidos, já separado da esposa americana, São Paulo me pareceu uma cidade barulhenta e poluída demais. Pensei em voltar para os Estados Unidos, mas era no Brasil que desta vez queria estar. Fiquei sem saber o que fazer, se ficava ou se voltava. Foi então que surgiu meu pai dizendo que o diretor de cinema Carlos Coimbra estava prestes a rodar um filme no Ceará e estava terminando de montar o elenco. Corri então para me candidatar a um posto de ator e fui aceito. Quando cheguei em Fortaleza, descobri o verdadeiro Brasil que procurava em meus sonhos. Encantei-me pelas coisas daquele pedaço do nordeste e disse pra mim mesmo, que um dia voltaria. Quando terminaram as filmagens, regressei novamente para os Estados Unidos, e fiz um curso de cinema no Berkley Film Institute em Oackland na California. Depois, arrumei minhas coisas e voltei definitivamente para o Brasil.
Tempos mais tarde, rumei pro Ceará.
Em Fortaleza casei novamente e tive cinco filhos. Tive que deixar a música de lado como ganha pão e me dedicar a outras profissões. Mas nunca parei de compor. Fui dono de pizzaria e restaurante e ainda tive tempo de me formar em filosofia.
Em 99 fiquei sabendo que a Hering estava com ótimas gaitas na praça, graças a um empreendimento da fabrica em obter mais qualidade em sua produção. Comprei uma cromática e uma diatônica e percebi a diferença. As gaitas tinham dado um grande salto em qualidade. Estavam mais vedadas com uma boa resposta. Comecei a estudá-las.
No mesmo ano gravei uma composição minha chamada Spanish Moon, tocando três gaitas cromáticas, com acompanhamento de bateria, baixo, piano e vozes. A voz solo, quem fez foi minha mulher Micheline, que canta muito bem. Em 2002 gravei uma outra composição, Michel, Homem de Cristal em duas partes. Gravei cinco gaitas cromáticas, uma diatônica e uma gaita baixo, acompanhadas por piano, baixo e bateria. No ano seguinte, outra composição, Mandacaru Express, com sete cromáticas, uma diatônica e uma gaita baixo, mais, acompanhamento de vários instrumentos feitos por mim como piano, teclados e baixo.
Mandacaru Express é uma música que procurei trabalhar bem o arranjo para dar um “colorido” diferente do convencional. E falando sobre coloração, elaborei um texto em que explico bem o que são as cores na orquestra, chamado “Coloração na Orquestra”. Sugiro dar uma olhada, porque texto igual a este é muito difícil de ser encontrado.
Tive também um bar, o Compadre Marinho com música ao vivo. Neste bar acabei conhecendo os melhores músicos da cidade. Havia a noite do samba, a noite do blues e a noite da mpb/jazz. De vez em quando, dava uma palhinha com os músicos.
Comecei a escrever os métodos para gaita blues em 2003. Neste ano telefonei pra fabrica de gaitas Hering e expliquei que era professor de gaita e pedi que me mandassem uma cromática customizada. Eles atenderam meu pedido e dias depois recebi uma Hering Special 48 vozes que era um espetáculo. Totalmente vedada com resposta imediata a qualquer toque. Desde então, venho estudando a gaita cromática mais seriamente e pretendo lançar ainda para o ano que vem um método para gaita cromática.
Estive em SP ano passado e falei com o Melk Rocha da Bends sobre um projeto de montar uma orquestra de gaitas jazz. Foi muito simpático comigo e disse que o que estiver ao seu alcance, ele fará para que possa dar certo. Dei uma passada também na escola de música Souza Lima e mostrei minhas músicas e eles gostaram muito, principalmente o guitarrista Lupa Santiago e o percussionista Mestre Dinho, antigo amigo da década de 70. Outro grande amigo lá do Souza é o Sizão Machado, grande baixista.
Atualmente leciono filosofia e dou aula de gaita cromática e de gaita diatônica blues em Fortaleza. O projeto de montar uma orquestra de gaitas continua em pé. Procuro gaitistas que saibam ler um pouco de partitura para facilitar os ensaios. A orquestra será sediada em Fortaleza. Interessados podem me procurar através do Gaitablog, ou entrar em contato diretamente comigo.
Vivendo de música
Meus alunos me perguntam se dá para viver de música. Respondo que a vida de músico é muito boa.
Se o músico é solteiro não é casado e não tem filhos, é mais tranqüilo. Caso contrário, precisa estar mais engajado ou ser formado em música e dar aulas para ter um rendimento melhor. A esposa precisa ter um trabalho também para ajudar nas despesas.
O importante é estar envolvido sempre com algum projeto, seja uma banda, gravando ou fazendo shows, produzindo, compondo, arranjando ou fazendo trabalho de estúdio.
É importante fazer aquilo que você gosta, mesmo que seja música instrumental que financeiramente é menos recompensado(meu caso).
Na parte didática tem que desenvolver apostilas, métodos.
Geralmente o músico se dedica a uma linha única ou no máximo duas. No meu caso dou aulas ora na escola de música, ora como professor particular e estou me preparando para gravar um CD instrumental e começar a entrar no esquema de shows.
Atualmente estou sendo menos professor e produzindo meu trabalho musical.
Dá sim pra viver de música. Eu não me preocupo em ser rico. Nem posso! Gosto de jazz! Não tenho uma dupla sertaneja, não faço pagode, pop-rock e não toco axé. Não tenho nada contra, mas, o importante é viver bem com aquilo que se gosta de fazer.
>>>Concorra à duas gaitas Hering RK 20 (lançamento) >PARTICIPE AQUI